10 Capítulo - 1ª parte
A Sra. Greey continuou a me contar mais algumas particularidades
de seus filhos e, depois, começou a falar mais um pouco sobre o Sr.
Greey.
- O Sr. Greey nunca me chamou de velha e muito menos de
rabugenta. Ele costumava me chamar de Selena enfezadinha, quando
eu ficava irritada com ele, diga-se de passagem, o que aconteceu poucas
vezes. O Sr. Greey, ao contrário de muitos homens, amou cada ruga e
cada imperfeição que nós, mulheres, vamos adquirindo com o passar
do tempo.
- Meu marido sempre me ajudou a cuidar das flores e das plantas…
Depois de se aposentar, ele se levantava antes de mim, cuidava de todo
o jardim, preparava o café da manhã e me acordava com um beijo e
uma flor. Até hoje sinto o cheiro do meu marido. Ele me deixou marcada
pelo resto da vida.
Ela interrompeu suas lembranças por um momento e disse:
- Sr. Sleiyver, sei que me acha velha demais para tocar em um
assunto tão particular como esse que vou abordar agora, mas eu gostaria
de lhe perguntar se alguma vez, ao se deitar com uma mulher, depois de
fazerem amor ou sexo - como queira-, sentiu que o suor de vocês
exalava um cheiro floral?
Eu fiquei ruborizado com a pergunta da Sra. Greey e respondi muito
envergonhado que nunca havia sentido esse aroma ao qual ela se referia.
Ela sorriu e comentou:
- Poucos são os homens e mulheres que percebem quando isso
acontece. O que vocês chamam de química ou comentam que a química
deu certo na cama, nós, as Selenas, denominamos de combinação das
essências.
- Se um dia sentir esse aroma no ar, Sr. Sleiyver, posso lhe adiantar
que já tem 50% de chance de estar perto de encontrar o seu verdadeiro
amor. Pois, o amor nada mais é do que a combinação das essências ou
espíritos de um homem e uma mulher. E, quando bem cuidado e regado
com respeito, carinho e cumplicidade; com o tempo essas essências ou
espíritos tendem a se tornarem um só.
- E isso é o amor, Sr. Sleiyver! Sem muitos mistérios! Nós é que
complicamos demais!
Após me brindar com uma definição de amor tão bela, a Sra. Greey
disse que era hora de falar de Selena Sara. Vendo a mudança súbita de
assunto, eu comecei a rir e perguntei à Sra. Greey como ela conseguia
estar em dois lugares ao mesmo tempo. Logo depois de ouvir a minha
pergunta, ela deu uma risada engraçada e respondeu tranqüilamente.
- Sr. Sleiyver, és um policial inteligente e sabes muito bem que não
posso estar em dois lugares ao mesmo tempo. Quando não estou aqui,
estou na feirinha.
Comecei a rir e falei:
- A senhora fica tão diferente! A pele mais escura, seu cabelo fica
mais branco e seus olhos mais azuis.
Ela sorriu de novo e retrucou:
- Sr. Sleiyver, além de ser uma Selena e ter meus segredinhos, vale
lembrar que estamos no ano de 1999. No início, eu escurecia minha
pele só com alguns truques de Selenas. Hoje, uso esses mesmo truques,
mas conto também com alguns cosméticos para não deixar transparecer
a minha verdadeira idade, já que todo mundo envelhece e com a Selena
Sara não seria diferente. Uso uma peruca comprada em uma cidade
próxima e há uns 15 anos uso lentes de contato azuis, que realçam
ainda mais a cor dos meus olhos.
Eu fiquei rindo e olhando para a Sra. Greey que também ria de
mim. Esse foi um momento muito curioso.
- Perguntei à Sra. Greey se o Sr. Greey, quando ainda estava vivo,
sabia que ela ainda vendia suas ervas na feirinha como Selena Sara.
- Ele sempre soube, mas fingia que não sabia para não se aborrecer.
Eu sempre fui uma Selena, Sr. Sleiyver, e não podia perder a minha
identidade. Ajudar o próximo com meus conhecimentos é minha
obrigação. Não me refiro somente a ajudar os outros recorrendo aos
meus conhecimentos sobre perfumes, mas por meio do conhecimento
das ervas, que podem auxiliar as pessoas mais humildes. Além disso,
uma palavra amiga dita num momento de necessidade e aflição, muitas
vezes, vale mais do que qualquer remédio.
- Enquanto meu marido era vivo e estava ocupado trabalhando,
eu dizia a ele que ia até a Vila das Selenas para visitar a minha mãe.
Nessa época, eu só ia à feirinha duas vezes por semana. Quando ele se
aposentou, passei a ir apenas uma vez e, depois que ele se foi, vou
rigorosamente todos os dias - explicou-me ela.
Ela me perguntou em que momento eu havia percebido que ela e
Selena Sara eram a mesma pessoa.
- Sra. Greey, eu já estava desconfiado, mas só tive certeza mesmo
quando me despedi de Selena Sara na feirinha e percebi que ela tinha o
mesmo cheiro da essência que a senhora costumava queimar - respondi.
Aproveitando, perguntei:
- A senhora faz perfumes?
- Ela começou a rir e disse que sim.
- A senhora vende esse perfume para a loja em que a Rose trabalha?
- perguntei curioso.
Ela riu ainda mais e disse que vende para o dono da loja como a
Selena Sara e que ninguém desconfiava que ela(?) se passava pela tal
Selena. Depois ela me contou como essa venda era realizada.
- O dono da loja em que Rose trabalha compra a mesma
quantidade de perfumes Florentis todo mês, para não chamar a atenção
dos donos da Florentis Cosméticos. E ele também compra a mesma
quantidade do meu perfume, digo, do perfume da Selena Sara - Sra.
Greey fala e sorri - conhecido como D’lamour. Eu queria mesmo era
que o perfume se chamasse Greey, mas as pessoas iriam descobrir
logo… Samuel é quem entrega os frascos de perfume ao dono da loja
para mim.
- Com esse dinheiro, eu fabrico mais perfumes e aproveito para
vendê-los também na periferia a um preço bem mais baixo. Vendo para
as moças a cinco moedas de nosso dinheiro e deixo que elas paguem
como podem. E elas pagam direitinho.
- Eu cobro para que elas aprendam a conquistar as suas coisas.
Não sou muito a favor de dar nada a ninguém sem cobrar. Acho que as
pessoas precisam sentir o gosto da vitória conquistando as coisas por si
mesmas.
Eu comecei a rir e falei:
- Quer dizer que as meninas da periferia têm um perfume melhor
que o Florentis?
Ela sorriu e disse que sim e que ela fica muito feliz em poder fazer
isso porque as meninas pobres ficam com a auto-estima muito elevada.
E a Sra. Greey continua:
- Toda vez que a Selena Sara - cada vez que menciona o nome
dela, sorri - vai à periferia, as meninas contam uma história nova. A
última me deixou emocionada! Uma das meninas estava paquerando
um rapaz há muito tempo e ele nem dava bola para ela. Um dia ela se
aproximou de mim e falou: “Selena Sara, eu gostaria de comprar um
perfume, mas só posso pagar uma moeda de nosso dinheiro por mês,
pois meu pai está desempregado e todo dinheiro que minha mãe ganha
é para as despesas da casa. A senhora poderia vender para mim nessas
condições?”. Fiquei olhando para ela e vi em seus olhos que sua essência
era muito bonita e vendi o perfume para que ela pagasse como pudesse.
Já faz dois meses que ela comprou o perfume. Há pouco tempo estive
na periferia e quando essa menina me viu, correu em minha direção e
disse sem poder conter a sua alegria: “Selena Sara, eu conquistei o rapaz
que estava paquerando há mais de seis meses. Sabe o que ele falou?
Que eu sou a moça mais cheirosa que ele já conheceu em toda sua
vida”. Ela me abraçou e disse que estava muito feliz e me agradeceu
por eu ter confiado e a deixado pagar o perfume aos pouquinhos.
Depois de finalizar a história da moça, a Sra. Greey olhou para mim
e falou:
- Sr. Sleiyver, se a essência de uma mulher não for boa, ela pode
usar várias vezes ao dia os melhores e mais caros perfumes do mundo
que o cheiro não fica.
- Por um outro lado, se sua essência for boa, basta que passe o
perfume uma vez ao dia, para que sua pele o absorva de tal forma,
misturando-se ao seu espírito, que ela ficará o dia inteiro cheirosa.
Achei curioso o comentário da Sra. Greey. Nunca havia pensado
dessa forma sobre as mulheres. Fiquei impressionado com a Sra. Greey
e muito contente de ter vindo a Florentis.
Já eram quase 18h e eu disse a Sra. Greey que precisava ir embora,
pois tinha marcado um jantar com Samuel, Daniel e Rose. Aproveitei
para perguntar a ela se não gostaria de se juntar a nós nesse jantar.
A Sra. Greey acariciou o meu rosto e falou:
- Não, meu filho! Já cedeste seu tempo demais para mim. Vá e
divirta-se com seus novos amigos. Passei um dos dias mais felizes desses
últimos cinco anos.
- Levantei, dei um abraço bem gostoso nela e um beijo afetuoso
em sua testa e fiz questão de que ela soubesse que eu também havia
passado uma das melhores tardes desses últimos anos de minha vida e
disse:
- Fico feliz em saber, pois para mim foi o mesmo. Adorei ter
passado essa tarde em sua companhia. Aprendi muito com a senhora.
A Sra. Greey me acompanhou até próximo às escadas da varanda e
falou:
- Sr. Sleiyver, se um dia tiver uma filha, tenha paciência com ela.
- Bem, se um dia vier a ser pai, gostaria que fosse um menino, mas
se for uma menina, tudo bem. Mas por que a senhora está me dizendo
para ter paciência com ela? - perguntei curioso com o conselho que
ela acabara de me dar.
- Porque ela terá uma essência linda, mas vai puxar o gênio do pai
- fala e fica sorrindo para mim.
Eu achei engraçado o comentário dela e disse:
- Então, se eu vier a ter uma filha algum dia, ela se chamará Yasmin.
- Eu sei! - disse a Sra. Greey. Adeus, Sr. Sleiyver.
- Adeus, não! Agora eu sei que as Selenas vivem muitos anos e,
com certeza, eu irei encontrá-la aqui nesse mesmo lago em minha
próxima visita a Florentis.
A Sra. Greey me olhou e falou novamente:
- Adeus, Sr. Sleiyver.
Eu fiquei meio sem fala, mas entendi exatamente a mensagem da
Sra. Greey. Caminhei pelo lago e fui pensando em tudo o que a Sra.
Greey havia me contado. Queria tanto ajudá-la, mas não sabia como fazer.
Cheguei à pousada, tomei um banho, me arrumei e fui ao encontro
de Samuel e Daniel, que já estavam à minha espera na porta da pousada.
Passamos no centro da cidade, pegamos Rose e seguimos para um
restaurante que ficava um pouco depois da entrada de Florentis.
O restaurante era muito aconchegante e tivemos um jantar
maravilhoso. Daniel ficou o tempo todo grudado em mim e falava pelos
cotovelos. Samuel ria dele e Rose aproveitava para apertar as bochechas
do garoto. Foi muito divertido!
Eram quase 21:30h quando fomos embora. Deixamos Rose
primeiro, depois levamos Daniel em casa e Samuel me perguntou para
onde eu gostaria de ir depois que estivéssemos só nós dois. Eu pedi a
ele que me levasse a um lugar especial. Ele prontamente atendeu o meu
pedido.
Lá pela meia-noite eu estava de volta à pousada. Entrei no meu
quarto e fiquei olhando a casa do lago pela janela.
A Sra. Greey ainda estava acordada e parecia estar pintando. Fiquei
a observando por um tempo e depois fui dormir.
Eu precisava acordar cedo, pois meu vôo estava marcado para as
15h e o aeroporto era em uma cidade próxima a Florentis. Pedi ao
Samuel que me apanhasse às 11h. Dormi como uma pedra!
Tags: Mulheres, O Segredo da Sra Greey, Perfumes, Romance
Meu nome é Elaine Paiva, sou escritora e torno público a partir de hoje, o meu livro, “O Segredo da Sra Greey”.
Espero que gostem. Sejam Bem Vindos!