7º Capítulo - 1ª parte
Cheguei à feirinha por volta das 12:30h e a Selena Sara já estava
com sua barraquinha montada. Aproximei-me dela e perguntei-lhe se
eu poderia visitar a Vila das Selenas. Ela disse que sim e me informou
que o guia de turismo de Florentis conduz os visitantes a um passeio
pela floresta e depois os leva para conhecer a Vila. Selena Sara dá uma
parada olha para mim e fala:
- Se o senhor quiser, eu posso levá-lo até lá. Se não se importar
em desfrutar da companhia de uma velha, é claro!
Eu respondi que seria um prazer ser acompanhado por ela até a
Vila e perguntei quando poderíamos ir até lá. Ela respondeu
imediatamente:
- Agora mesmo, Sr. Peter!
- Agora? Mas e a sua barraquinha?
- Quando preciso sair, tenho uma pessoa muito especial que toma
conta da barraquinha para mim - ela me explicou sorrindo. Em seguida,
fez um sinal para alguém que estava atrás de mim e quando me virei
para olhar, vi que a pessoa a quem ela se referiu e que estava se
aproximando para assumir seu posto era Daniel.
Olhando para mim com um sorriso no canto da boca, Daniel falou:
- Pois não, Selena Sara. A senhora precisa que eu fique na
barraquinha?
- Sim, Daniel, mas preciso que antes vá chamar o taxista Samuel.
Eu comecei a rir, pois lá estavam os fieis escudeiros da Sra. Greey
me rondando de novo, só que desta vez junto com a Selena Sara. Samuel
se aproximou e se dirigiu imediatamente a Selena Sara perguntando se
ela mandara chamá-lo.
-Sim, Samuel! O Sr. Peter deseja visitar a Vila das Selenas. Você
pode nos levar até lá? - ela perguntou ao taxista.
- Com o maior prazer, Selena. Vou buscar o carro e paro bem aqui
na saída da feirinha para buscá-los. Só um minutinho, que já venho.
- Obrigada, Samuel.
Enquanto Selena Sara falava com Samuel, Daniel ficava me olhando
com vontade de rir e eu não entendia o porquê de ele estar se
comportando daquele jeito. Fiz um sinal para ele dando a entender que
depois conversaríamos. Aí mesmo que ele riu de mim. Pensei: “Que
moleque!”, depois, eu mesmo achei graça do jeito do menino.
Samuel trouxe o carro ao local onde havíamos combinado de
encontrá-lo e eu fui até o táxi de braços dados com a Selena Sara.
Enquanto Samuel fazia o trajeto até a Vila, vez ou outra ele me olhava
pelo retrovisor e exibia o mesmo sorriso que Daniel havia me dado lá
na feirinha. Eu já estava ficando meio irritado com essa maneira deles
me olharem! Selena Sara, muito quieta, admirava a paisagem, enquanto
eu ia conversando com Samuel.
O caminho até a Floresta de Florentis é lindo! Quando Rose falou
sobre os pássaros, ela não estava exagerando, pois havia muitos e seu
canto era maravilhoso! Do interior do carro, eu podia sentir o cheiro da
natureza e era invadido por um sentimento de paz muito grande.
Durante o percurso, Samuel contou algumas histórias interessantes
e Selena Sara, em determinados momentos, confirmava o que o taxista
dizia. Quando cheguei à entrada da Vila, fiquei impressionado. O que
os moradores de Florentis e as próprias Selenas chamavam de vila era,
na verdade, um condomínio fechado, com os mais variados tipos de
casas. Algumas casas eram muito bonitas, outras mais simples e ainda
existiam, mais acima, bem próximo à floresta, alguns chalés.
Impressionado com o que eu vira, olhei para Samuel e Selena Sara
e perguntei:
- É isso que vocês chamam de Vila? Onde eu vivo, chamamos
construções desse tipo de condomínio. Eu mesmo o classificaria como
um condomínio de classe média.
Os dois ficaram rindo de mim. E eu continuava com aquela cara de
panaca diante da tal Vila!
Sorrindo, Selena Sara me disse:
- Sr. Peter, estamos no ano de 1999. Mesmo sendo Selenas ou
descendentes delas, somos um povo organizado e estudioso.
Trabalhamos como qualquer outra pessoa e também temos acesso à
cultura externa. Nunca fomos ignorantes a ponto de achar que éramos
os donos da verdade. O mundo mudou e a vida das Selenas e da nossa
Vila também. Vamos entrar…
Entrei na Vila das Selenas e fiquei observando as casas. Algumas
eram muito lindas, exatamente do jeito que eu gosto, com muito espaço
no quintal, bastante verde, sem muitos exageros na construção e nada
de muito luxuoso. Observei também alguns detalhes muito interessantes.
As casas, fossem elas simples ou mais luxuosas, quem sabe o melhor
termo para defini-las seria arquitetadas - de dois andares com uma
varanda tipo chalé -, todas sem exceção tinham um totem de madeira
de mais ou menos 1,70m de altura com escritas que eu não conheço.
Ao lado de cada tora dessas havia um vaso grande com lindas flores.
Enquanto eu admirava cada casa, Selena Sara e Samuel ficavam me
olhando e sorrindo. Eu estava totalmente encantado com aquele lugar,
tamanha a paz que sentia ali. Andamos mais um pouco e cheguei ao
centro da Vila. Agora sim, poderíamos dizer que estávamos na Vila das
Selenas.
No centro da Vila tinha um círculo de pedra enorme com várias
toras ao seu redor, muitas flores e beija-flores bebendo água em pequenos
talhos que foram feitos propositadamente na parte inferior das toras.
Essa água vinha de uma nascente da floresta e caía dentro desse círculo.
Havia também muitas borboletas e de onde eu estava podia ouvir muitos
pássaros. Que lugar lindo!
As crianças estavam brincando quando cheguei, mas quando me
viram ficaram me olhando com uma cara. E foi nesse momento que me
dei conta de que todos na Vila estavam com os olhos voltados para mim.
Algumas moças estavam no interior de suas casas escondidas, me
olhando através das cortinas ou das portas entreabertas. Os mais velhos
vieram para frente de suas casas. E mais à frente, atrás desse círculo de
pedra, cerca de dez pessoas, entre mulheres e homens, me olhavam
como se estivessem aguardando minha aproximação até eles. Fui tomado
por uma sensação muito esquisita. Não era medo, mas eu queria entender
porque todos me olhavam daquele jeito!
Nos aproximamos dessas pessoas e Selena Sara fez um cumprimento
especial.
- Saúdo ao meu povo de Selenas e Selenos desejando paz, amor e
fraternidade! Hoje trouxe um visitante muito especial, o Sr. Peter Sleiyver,
que está de férias na Cidade de Florentis e pediu-me para conhecer a Vila.
Ao ouvir o que ela dissera, fiquei arrepiado e, confesso, intrigado
também. Arrepiado com o tom da voz de Selena Sara, que estava muito
diferente do tom de voz que ela usava normalmente enquanto conversava
comigo. Por outro lado, fiquei intrigado porque não havia falado meu
sobrenome para Daniel e muito menos para Samuel.
Uma mulher beirando uns 35 anos se aproximou e falou sorrindo:
- Saudamos o visitante Peter Sleiyver da cidade do Rio de Janeiro,
mais conhecida como Trimegisto pelos seus intérpretes e representantes
da lei e o recebemos como um filho em nossa Vila! Sou a Selena Iasmaya,
jornalista, professora e Vice-Presidente do Conselho da Vila das Selenas.
Estávamos à sua espera!
Mais uma vez eu ficara sem fala na cidade de Florentis! Que mistério
era esse? Como poderiam saber de minha chegada à cidade? De onde
eu vinha? Meu sobrenome? E por que estavam à minha espera?
- Sr. Peter, venha conhecer os outros membros do conselho e
depois poderá andar pela Vila à vontade - diz Selena Iasmaya.
Eu fui apresentado a todos e muito bem-recebido por eles. Um
pouco adiante observei uma senhora bem velha, não sei dizer a idade
certa, mas pareceu-me ter mais de 90 anos e estava sentada em uma
cadeira ao lado de uma tora e de um vaso de flores.
Selena Iasmaya me levou até ela e me apresentou a velha senhora.
- Sr. Peter, essa é a nossa mãe. Ela é a mais velha de todas as
Selenas existentes dentro e fora da Cidade de Florentis, tem 135 anos e
é a presidente do Conselho da Vila.
Eu quase caí duro quando Selena Iasmaya me disse a idade daquela
senhora. Fiquei olhando para a Selena e meio assustado procurei pela
Selena Sara que havia sumido. Eu me curvei, beijei a mão da velha
senhora e falei que era um prazer conhecê-la. Ela olhou dentro dos
meus olhos, colocou a mão na minha testa e disse com voz firme e
pronunciando claramente as palavras:
- Seja bem-vindo à nossa Vila. Que a natureza de Florentis possa
acalmar seu coração lhe trazendo as respostas que tanto procura. Que a
energia maior possa guiar seus caminhos.
Assim que terminou de falar, ela pegou a palma de minha mão
direita, olhou, sorriu e disse:
- Visite a Sra. Greey antes de ir embora. Ela quer dar uma
palavrinha com o senhor.
Ainda confuso com tudo o que estava sentindo naquele momento,
eu disse à velha Selena que já sabia que a Sra. Greey desejava falar
comigo e que iria visitá-la na próxima sexta-feira.
A Selena Mãe olhou mais uma vez bem dentro dos meus olhos, me
deu um beijo na testa e disse para eu ficar em paz.
Nesse momento, eu fiquei muito emocionado. Eu não sei porque,
mas desde que cheguei a Florentis, meus sentimentos ficaram todos
revirados.
Selena Iasmaya me convidou para conhecer a Vila. Eu me despedi
da Selena Mãe também com um beijo na testa e seguimos para a parte
mais alta da Vila.
Nota por Elaine: O Sétimo capítulo é muito grande, então para não ficar cansativa a leitura na tela, optei por dividir em partes.
Tags: Livros, Magia, Minicontos
Meu nome é Elaine Paiva, sou escritora e torno público a partir de hoje, o meu livro, “O Segredo da Sra Greey”.
Espero que gostem. Sejam Bem Vindos!