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O Segredo da Sra Greey

O Segredo da Sra Greey - 7º Capítulo / 2ª Parte

7º Capítulo - Segunda Parte

Selena Iasmaya mostrou-me muitas coisas, as hortas da Vila, as ervas
que as Selenas verdadeiras vendem na feirinha, uma enorme plantação
de flores! Cada uma mais bonita que a outra. Cheirosas iguais às mulheres
de Florentis. Eu parecia estar enfeitiçado naquele lugar! Quanto mais
nos dirigíamos para dentro da floresta, mais encantado eu ficava. O
canto dos pássaros era maravilhoso. Tinha um lindo bem perto de mim
e da Selena. Paramos e ficamos ouvindo e admirando o seu canto.
Depois começamos a conversar sobre a cultura da Vila e como eles
convivem com os moradores de Florentis. Selena Iasmaya falou-me
coisas que me deixaram sem palavras e algumas delas eram até bastante
engraçadas! Ela me disse sorrindo que, ao contrário do que muitas
pessoas de Florentis pensam, elas são muito mais normais do que os
habitantes daquela cidade.
- O estudo aqui é levado muito a sério, não só o que se refere à
nossa cultura, mas também o ensino do currículo normal. Temos
autorização do departamento de educação competente, com
reconhecimento curricular, para alfabetizarmos nossos filhos na própria
Vila até a quarta série primária. A partir daí, todos passam a estudar em
Florentis e, quando se interessam em cursar um nível superior, fazem
prova para uma faculdade na cidade vizinha. Florentis tem excelentes
escolas públicas. São as melhores da região. E a faculdade, que fica na
outra cidade, também é muito conceituada.
E Selena Iasmaya continua:
- Em nossa Vila temos médicos, professores, psicólogos,
engenheiros, advogados, contadores etc., e, modéstia à parte, temos
excelentes profissionais aqui.
Olhei para Selena Iasmaya, sorri e falei:
- Esqueceu de dizer que aqui também moram jornalistas.
- Eu sou a única jornalista entre as Selenas, Sr. Peter. Tenho paixão
por essa profissão. Trabalho no Jornal de Florentis e presto serviços a
algumas revistas de outras cidades como freelancer. Além disso, também
dou aula aqui para as turmas do primário. Confesso que está meio
confuso conciliar tudo isso. Acho que futuramente precisarei deixar um
de meus trabalhos. Como o senhor sabe, como Vice-presidente do
conselho da Vila, também tenho minhas responsabilidades; na verdade,
muitas responsabilidades.
Ela continuou a falar com orgulho dos descendentes de Selenas:
- Muitos dos nossos moram em Florentis ou em cidades próximas
por opção ou porque profissionalmente lhes é mais conveniente. Se o
senhor observar, algumas casas estão fechadas. Essas são casas de
descendentes de Selenas que moram fora e vêm passar finais de semana
ou a temporada de férias aqui. Como o senhor pode ver não somos
muito diferentes.
Eu perguntei à Selena Iasmaya o que tornava as Selenas e seus
descendentes diferentes da população de Florentis. Ela me respondeu
com um sorriso nos lábios que eram a cultura, alguns hábitos, o folclore
e as lendas.
- Os mais antigos criaram tantas lendas em volta das Selenas que
passamos a ser um povo temido. E, durante muitos anos, foi complicado
viver em Florentis.
- Após a vinda da Selena Mãe, aquela senhora que o senhor falou,
é que o povo de Florentis passou a mudar um pouco a sua forma de
pensar. Selena Mãe chegou aqui já mocinha. Ela era filha de uma Selena
que morou por muito tempo na cidade. Quando aqui chegou ela causou
muitos atritos entre as Selenas, porque queria que a Vila se integrasse
ao povo da cidade. Ela levou muitos anos para ser respeitada e depois
de muito argumentar ao lado de sua mãe, e mais tarde apoiada também
por seu marido e filhos, conseguiu aos poucos ir mudando a cabeça dos
mais antigos e das Selenas mais radicais. E foi assim que a Vila se tornou
esse paraíso cheio de paz que o senhor está vendo!
Olhei para Selena Iasmaya, sorri e falei:
- Não é bem assim! Ouvi muitas lendas na Cidade de Florentis
sobre as Selenas…
- Temos nossa cultura e também nossos segredos, mas nada que
faça mal às pessoas. Muitas dessas lendas foram perpetuadas
propositadamente. Afinal, qual seria o charme de Florentis? Não é
verdade?! O que mais lhe intrigou em Florentis? - Selena Iasmaya
pergunta e fica rindo.
- Eu me interessei muito pelas histórias contadas sobre as Selenas,
por isso vim até aqui para ver com meus próprios olhos.
E Selena Iasmaya continuou dando alguns exemplos sobre a cultura
de seu povo.
- Entre o seu povo, vocês comemoram aniversários, certo?
- Eu respondi que sim. E ela continuou:
- Nós aqui na Vila também comemoramos, mas de uma forma
diferente. Juntamos todos os aniversários do mês e comemoramos de
uma só vez em volta daquele círculo ali. Venha comigo que eu vou lhe
mostrar.
Selena Iasmaya me levou para uma parte mais aberta da floresta,
perto de uma cachoeira. Ali havia um outro círculo igual àquele do
centro da Vila, só que sem água, apenas com as toras e os vasos contendo
flores. No centro desse círculo tinha uma espécie de braseiro, como se
acendessem uma fogueira ali.
Ela me olhou, começou a rir e depois falou:
- Sr. Peter, não queimamos criancinhas e nem animais aqui. Todo
final de mês a comunidade da Vila se reúne para comemorar os
aniversários do mês.
- Por uma questão de ritual de nossa cultura dentro daquilo que
acreditamos, fazemos uma fogueira naquele círculo e dançamos em volta
dele. E quando acendemos a fogueira, após nossas mentalizações do
desejo de saúde e de muitas felicidades, colocamos uns ingredientes.
Pequenos segredinhos que temos nessa fogueira… E quando fazemos
isso, as labaredas vão lá em cima. As crianças adoram e acreditam que
seus desejos serão atendidos. Assim como as crianças de seu povo
acreditam em Papai Noel, duendes, fadas, bruxas etc., nossas crianças
também têm suas próprias crenças. Com o tempo, nós vamos contando
a verdade para eles, mas alguns mais espertinhos logo descobrem.
Eu comecei a rir e lembrei-me de Rose.
Selena Iasmaya também riu e falou:
- Eu sei no que o senhor está pensando. As pessoas, em geral,
comentam que fazemos bruxarias para as mulheres que se perderam e
precisam casar-se correndo ou para fazer com que suas menstruações
desçam o mais rápido possível. Quanta maldade desse povo, Sr. Peter!
E ela continua.
- Sr. Peter, as Selenas são a favor da vida! Jamais faríamos qualquer
coisa para tirar uma vida. Nós conhecemos sim as ervas abortivas, mas
não as indicamos nem tampouco as oferecemos a ninguém. Algumas
Selenas que foram banidas de nossa Vila, exatamente por passar essa
informação adiante e hoje moram por aí, é que nos deixaram nessa
situação. Aqui em nossa Vila quando uma de nossas filhas engravida
antes do tempo, elas sabem que têm de assumir suas responsabilidades.
Todas recebem nosso apoio, desde que trabalhem para sustentar sua
criança e que tenham responsabilidades não só de mãe, mas também de
mulher, não engravidando outras vezes sem estarem casadas ou ao
menos ao lado de alguém que elas saibam que realmente podem contar.
Na última reunião do conselho que fizemos, mais uma vez ficamos
muito felizes. Pois há quatro anos nossas filhas da Vila não engravidam
antes do tempo. Fizemos várias campanhas educativas de como prevenir
a gravidez e também as doenças sexuais. Incentivamos nossas filhas a
estudar primeiro, a ter uma profissão e depois, sim, cabe a elas decidirem
o que mais lhe convier.
Olhei para Selena Iasmaya e fiquei realmente admirado com o que
ela havia acabado de me falar.
- Acompanhamos também todas as campanhas de vacinação das
crianças, prevenção da mulher e do homem. E todas as campanhas que
julgarmos necessárias para o bem-estar de nosso povo serão bem-vindas
em nossa comunidade. Como já disse, não somos as donas da verdade.
Nossas ervas, que são muito utilizadas em Florentis e também por nós
aqui na Vila, são voltadas para tratamentos de doenças simples e também
para substituir alguns medicamentos que produzem o mesmo efeito.
Esse tipo de tratamento à base de ervas, além de ser eficiente no combate
às doenças, permite que as pessoas mais humildes tenham como dar
continuidade ao tratamento. Mas sempre alertamos que as pessoas devem
procurar antes um médico, assim como nós também fazemos antes de
começarmos a nos tratar. O senhor deve ter visto uma Selena na feirinha
vendendo um remédio que cura o câncer. Pois eu lhe digo, não há
nenhuma evidência em nossos registros que essa erva faça tal cura. E
estamos alertando as pessoas da cidade contra essa erva, pois se ela não
for dissolvida de forma correta poderá tornar-se tóxica
Ao ouvir isso, eu disse a ela que havia visto sim e aproveitei para
perguntar-lhe porque tantas mulheres se passavam por Selenas nas
feirinhas.
- São mulheres que vêm da periferia de Florentis e não conseguem
emprego. Elas aprenderam um pouco sobre as histórias das Selenas e
conseguiram, com algumas Selenas desgarradas que fazem tudo por
dinheiro, fórmulas de perfumes e um pouco de conhecimento sobre
ervas - explicou-me.
De repente, senti um cheiro de pão, broa, sei lá. Um cheiro muito
bom! Selena Iasmaya sorriu e perguntou-me delicadamente se eu aceitaria
fazer um lanche com elas.
Eu fiquei meio sem graça e Selena Iasmaya começou a rir de mim e
disse:
- Sr. Peter, usamos pó de café comprado em supermercado, açúcar
mascavo, açúcar normal e adoçante. E esse cheirinho de broa é igualzinho
ao que o senhor come no café da manhã que é servido na pousada.
Somos nós que fazemos e entregamos lá bem cedinho.
- E então, vamos? - ela insistiu no convite.
Fiquei rindo do jeito dela e aceitei lanchar com eles.
Selena Iasmaya levou-me até sua casa. Uma casa bonita de dois
andares e com muitas plantas. No meio de sua sala de estar, havia um
tronco de árvore. Achei muito interessante!
Quando olhei para uma salinha à minha esquerda, vi Selena Sara
conversando com as filhas de Selena Iasmaya.
Selena Iasmaya tem três filhas: Yasmin, Inaya e Heleyne. Todas
moças entre 08 e 18 anos. Pelo menos é o que eu acho. Selena Iasmaya
chamou-me e apresentou-me às meninas. Depois de nos
cumprimentarmos educadamente, todos seguimos para uma pequena
saleta, tipo jardim de inverno. Sentei-me com as Selenas Sara e Iasmaya
e as meninas sentaram-se em outra mesa. Vez ou outra ficavam me
olhando e rindo! Senti-me um extraterrestre sendo observado por elas.
Percebendo o meu desconforto com os olhares das meninas, Selena
Iasmaya disse-me que eu não ligasse, pois suas filhas eram assim mesmo,
muito curiosas. O café estava ótimo e a broa então, nem se fala.
Engraçado que eu não sou de comer muito não, mas nessa tarde eu me
fartei!
Selena Iasmaya contou-me sobre os costumes alimentares da Vila.
Eles não comem frango. Segundo os mais estudiosos no assunto, a
gordura do frango faz mal ao cérebro. Eles comem carne de rã, cobra,
cabrito e de boi. Selena explicou-me que eles têm uma técnica para
abater os animais de modo que eles não sofram tanto fazendo com que
a carne fique mais saudável. Contou ainda, que esse abate é feito só
pelos homens em uma pequena fazenda que pertence à Vila situada
floresta abaixo. O povo da Vila se alimenta também de muito peixe,
verduras, legumes e raízes. Até que me identifiquei com essa parte, é
bem a minha cara!
Conversei bastante e quando deu 17h avisei as Selenas que precisava
ir embora, mas antes perguntei à Selena Iasmaya se na escola da Vila
havia vaga para uma professora. Quando eu ia completar a minha
pergunta, Selena Iasmaya interrompeu-me e falou:
- Você quer saber se tem vaga por causa de Rose?
- Sim. Rose conhece tantas histórias de Florentis e narra com tanto
carinho que penso que as crianças iriam adorar! - respondi.
- Nós até gostaríamos de tê-la como professora da Vila, mas ela
tem medo da gente. Selena Sara já mandou um recado para ela vir
conversar comigo, mas até hoje ela não veio.
- Você se importaria se eu tentasse convencer Rose a visitar a Vila?
Selena Iasmaya respondeu que eu podia tentar, porém, Rose deveria
ir sozinha à Vila.
Eu disse que tudo bem e comecei a me despedir. Dei um tchau
geral para as meninas que continuavam a me olhar de forma engraçada.
Selena Iasmaya nos acompanhou até a saída da Vila.
Despedi-me agradecendo pelo carinho e pela atenção dispensada e
falei para a Selena Iasmaya que há muito tempo não tinha um dia tão
agradável.
- Volte na primavera, Sr. Peter! Fazemos muitas festas nessa época.
Vá com Deus, meu irmão! - ela despediu-se.
Quando Selena Iasmaya me chamou de irmão fiquei até meio sem
fala. Elas têm um jeito muito agradável de tratar as pessoas. Quando ela
se referia às filhas da Vila, na verdade se referia a todas as moças da
comunidade.
Fiquei meio perdido na hora de ir embora e procurei pela Selena
Sara. Quando olhei, ela já estava dentro do carro com Samuel, que mais
uma vez estava rindo de mim. Entrei no carro e seguimos para a cidade.
Descemos na feirinha e brinquei com Daniel dizendo que depois
teríamos de ter uma conversinha. Não é que o danado do menino ficou
rindo de novo de mim! Despedi-me de Selena Sara agradecendo pela
companhia e por me levar à Vila das Selenas. Quando fui lhe dar um
abraço, senti o cheiro do mesmo perfume que minha mãe usava. Depois
lhe dei um beijo na testa e disse que, antes de ir embora, a procuraria
para me despedir. Selena Sara agradeceu e disse que não tinha a menor
dúvida de que eu a encontraria de novo. Paguei Samuel e depois segui
para a loja de Rose. Queria tentar convencê-la a conversar com a Selena
Iasmaya.
Quando entrei na loja de Rose, ela ficou me olhando e logo me
perguntou o que tinha havido para eu estar assim tão eufórico. Eu disse
a ela que precisávamos conversar sobre um assunto particular e perguntei
se ela poderia deixar a loja por uns minutinhos. Rose, meio sem graça,
falou com a gerente que ia fazer um lanche e que não demoraria. Fomos
até a feirinha e comecei a conversar com Rose sobre a possibilidade de
ela ir até a Vila. Ela empalideceu e recusou imediatamente.
- Nem pensar, Peter! Tenho medo dessa gente! Sei lá o que pode
acontecer comigo. Os que eles fizeram com você? Te enfeitiçaram?
Fiquei mais de dez minutos falando, sem deixar que Rose me
interrompesse para questionar alguma coisa e, no final, pedi a ela que
pelo menos pensasse nessa possibilidade. Ela ficou balançada, mas
demonstrava muito medo. Rose disse que ia pensar e que à noite me
falaria qual seria a sua resposta.
Despedi-me de Rose, peguei um táxi e fui para a pousada. Lá
chegando, tomei um banho e deitei-me na minha cama. Fiquei com
meus pensamentos longe! Fiquei pensando em minha Tia Joiyn. Ela iria
adorar esse lugar! Do jeito que ela é, seria bem capaz de ir morar na
Vila das Selenas! Ah! Tia Joiyn, estou com saudades! Depois de minha
mãe, minha tia é a pessoa que mais me conhece, é capaz de saber o que
estou sentindo só num olhar. Sillerman também, mas ela é demais! “Que
dia maravilhoso! Há muito tempo que não me sentia tão bem!”, pensei.
Para ficar ainda melhor, faltava apenas agora eu sair com uma mulher,
já que a coisa estava ficando feia para o meu lado. Mas Karine, não!
Nem pensar! Rose menos ainda, porque ela é muito romântica e está à
espera de um Sr. Greey em sua vida. E se eu saísse com ela, poderia
ficar impressionada achando que eu era o seu príncipe e acabaria fazendo-a
sofrer. “Depois que passar no barzinho à noite, vou pedir ao Samuel
para me levar a algum lugar diferente. Aquele maluco deve conhecer
todos os buracos daqui”, planejei. Fiquei olhando pela janela aquela
natureza de Florentis e acabei adormecendo.

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  1. Comment posted May 4th, 2008 at 6:00 am by blogcronicas.com » Blog Archive » O Segredo da Sra Greey - 7º Capítulo/1ª Parte

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Meu nome é Elaine Paiva, sou escritora e torno público a partir de hoje, o meu livro, “O Segredo da  Sra Greey”.

Espero que gostem. Sejam Bem Vindos!