6º Capítulo
Tomei um banho, me arrumei e passei um perfume de leve. Afinal,
eu estava na cidade das mulheres cheirosas e não podia fazer feio.
Fui tomar o meu café da manhã, conversei um pouco com o Sr.
Josephe e saí para caminhar perto do lago. Pela primeira vez desde que
cheguei, me aproximei da casa da Sra. Greey. Fiquei a observando,
enquanto ela arrumava a casa e regava suas flores. Num certo momento,
tive a impressão que ela tinha me visto e que estava rindo de mim, ou
quem sabe rindo para mim. Retribuí com um sorriso, pois eu sabia que
um dia acabaria indo visitá-la, mas, no momento, ainda não me sentia
preparado para esse encontro.
Fiquei mais um pouco por ali, até que ela me olhou diretamente nos
olhos e acenou com a mão, cumprimentando-me. Eu correspondi com
outro aceno e, depois, segui para o centro de Florentis. Na saída da
pousada, encontrei Samuel com seu táxi. Ele olhou para mim e
perguntou:
- Sr. Peter, o senhor vai para o centro da cidade?
- Eu olhei para Samuel e já meio p… da vida, respondi:
- Samuel, você sabe muito bem que é para o centro da cidade que
eu vou. Abri a porta, entrei e pedi para ele me deixar próximo à feirinha.
Samuel riu do meu jeito e falou:
- Se vai procurar a Selena Sara, devo avisá-lo que ela ainda não
chegou. Só mais tarde! - fala e fica rindo. Eu olhei bem sério para ele
e mais p… da vida ainda, perguntei:
- Como você sabe que eu ia procurar a Selena Sara, Samuel?
- Ué, Sr. Peter! Como ontem, eu lhe contei que a Karine havia
procurado a Selena Sara, achei que o senhor estivesse preocupado e que
fosse confirmar com a Selena Sara se ela realmente não fez o perfume
que a moça havia pedido.
Olhei para ele muito sério e disse:
- O.K., Samuel. Vou fingir que acredito! Me deixa, então, na rua
principal, pois quero visitar outras lojas de perfumes. E por falar nisso,
me tira uma dúvida. A Florentis tem loja própria na cidade?
- Não, Sr. Peter! A Florentis tinha uma loja aqui no centro, mas
houve um boato de que uma Selena estava vendendo muitos perfumes
a preços bem mais convidativos e com a mesma qualidade para os
visitantes. Daí, a Florentis resolveu fechar a sua loja exclusiva e vender
a um preço mais barato para todas as lojas da cidade. A Florentis, hoje,
só tem lojas próprias em outras cidades.
- Agora entendi porque vi todas as lojas vendendo o perfume.
Achei estranho que uma empresa de tantos anos não tenha a sua loja
própria, principalmente em se tratando da cidade onde o perfume é
fabricado.
- E quem foi que disse ao senhor que o Florentis é fabricado aqui?
- perguntou Samuel.
Olhei espantado para o taxista, e indaguei:
- E não é aqui?
- Não, Sr. Peter! Karine deve ter lhe contado a história do perfume
Florentis. Segundo os mais antigos, depois que a ambiciosa Selena roubou
a fórmula de sua amiga e casou-se com o tal comerciante, eles abriram
uma fábrica em uma cidade próxima. A única coisa que eles têm aqui é
um terreno, no qual cultivam a planta que contém a essência que gerou
o perfume Florentis - explicou Samuel.
- Humm! Interessante! E é verdade que a avó da Sra. Greey criou
uma fórmula ainda melhor do que a do Florentis? - perguntei curioso.
- Visite a Sra. Greey, que ela mesma lhe contará essa história -
respondeu Samuel sorrindo.
- Eu sei, Samuel! Eu já sei que a Sra. Greey pode me contar muitas
coisas… Diga a ela que sexta-feira eu irei fazer-lhe uma visita.
Samuel sorriu satisfeito, olhou para mim e disse:
- Sr. Peter, a Sra. Greey é uma pessoa muito especial e muito
inteligente também. Ela não é louca e nem tão velha quanto as pessoas
pensam. Ela pode ter o peso da idade, mas seu espírito é mais jovem do
que o de muita gente dessa cidade.
Samuel continua:
- Encontrará a Selena Sara a partir das 11h na feirinha.
Samuel parou o carro em frente à loja em que Rose trabalhava, que
ficava muito próxima à loja de Karine.
Depois, olhou para mim e, num tom debochado, disse para eu ter
cuidado com a Srta. Karine!
- Ela é capaz de armar um barraco se lhe vir conversando com a
Srta. Rose - completou o taxista.
- Samuel, vai cuidar da sua vida e deixa que, com as mulheres, eu
me viro - respondi.
- Isso é o que o senhor pensa, comentou o motorista.
Saltei do carro e fui em direção à loja de Rose. Entrei na loja e fui
muito bem recebido pela amiga de Karine. Eu disse a Rose que estava
passando por ali por perto e para agradecer a atenção dispensada por
ela na noite anterior, resolvi retribuir o carinho comprando uns frascos
de perfume com ela também. Rose me mostrou vários produtos, entre
eles o Florentis, mas foi um outro perfume que me chamou muita
atenção. Conversamos um pouco e Rose acabou me contando mais
uma história da “Cidade das Essências”.
- Peter, os antigos contam que quem vem a Florentis sempre volta
ou indica a cidade para sua família ou amigos como um dos melhores
lugares para se passar férias - disse ela.
- E também por causa da sensação de paz e harmonia que a cidade
transmite aos seus visitantes, algumas pessoas mudam seu
comportamento fazendo uma reflexão a respeito de sua vida -
continuou Rose.
- Segundo contou um velho ancião, um caçador veio para Florentis
pensando que aqui encontraria animais selvagens. No primeiro dia que
ele entrou na floresta, com o objetivo de caçar, deu de cara com uma
velha Selena e para todos os lados que ele tentava ir a velha aparecia na
sua frente. Nessa primeira vez, ele deixou a floresta apavorado e voltou
para o hotel no qual estava hospedado. Tratava-se de um hotel antigo
que tinha na cidade e que hoje nem existe mais. Lá chegando, procurou
saber da história da tal mulher que acabara de ver na floresta. Depois
que soube que se tratava de um vilarejo de Selenas, perdeu o medo e
voltou para a floresta para tentar caçar e, novamente, encontrou a velha
Selena. Dizem que ele começou a gritar: “Sai da frente, sua bruxa! Eu já
sei que você não é um fantasma! Eu vou atirar! Sai da frente!” -
prosseguiu Rose.
Eu ouvia Rose contando a história e me dava uma vontade
incontrolável de rir, porque ela tinha um jeito tão engraçado de falar. Se
Rose fosse professora, certamente as crianças iriam adorar, porque ela
narrava a história de tal forma que acabava envolvendo a gente também.
- A velha Selena ficou parada na frente dele e perguntou ao homem:
“Por que viestes em nossa floresta para matar nossos pequenos
animais?”. E ele respondeu: “Porque sou um caçador e faço isso por
puro prazer”. A velha Selena olhou para ele e falou: “Você não é um
caçador. É um homem amargo e triste, que despeja toda sua raiva sobre
os animais”. O caçador olhou para ela e disse que aquelas palavras de
bruxa não iriam impedi-lo de fazer o que mais gostava que era caçar. A
velha Selena olhou para ele novamente e falou: “Não irei impedi-lo, não
sou dona da floresta e lamento profundamente que sua tristeza e
amargura tragam tanta dor a seres tão pequenos e indefesos”. Depois
disso, ela desapareceu. O caçador ficou parado e não conseguia se mover.
As palavras da Velha Selena, de alguma forma, haviam lhe tocado
profundamente. Ele tentava apontar seu rifle para alguns bichinhos da
floresta, mas não conseguia atirar. Olhava para um lado e para outro e
via animaizinhos se mexendo e não conseguia sair do lugar. Naquela
época, em nossa floresta, tínhamos macacos, cobras, muitos coelhos e
muitos pássaros. Pássaros que temos até hoje. É lindo passear pela
floresta no final da tarde! Você escuta vários sons e eles são lindos!.
À medida que Rose avançava em seu relato, eu ficava ainda mais
fascinado pela história. E ela prosseguiu com sua narrativa.
” O caçador ficou nervoso porque não conseguia atirar. Ele sentou
perto de uma cachoeira e começou a chorar, igual a uma criança, mesmo.
E ficou olhando a floresta por um bom tempo. Quando anoiteceu, ele
muito desanimado resolveu descer a floresta e voltar para Florentis. No
meio do caminho, encontrou a velha Selena e ela lhe perguntou porque
ele era um homem tão triste.
O caçador olhou para a velha Selena e respondeu: “Quando era
muito pequeno, vi meu pai bater muitas vezes em minha mãe. Ela fugia
dele igual um bicho foge de um caçador. E quanto mais ela tentava
fugir, mais ele gostava, e batia nela mais ainda”.
A velha Selena se aproximou do caçador e perguntou: “Quando
caça os animais é como se estivesse caçando o seu pai?”. O caçador
começou a chorar. E nada o fazia parar de chorar, ele acenou com a
cabeça dizendo que sim. Em seguida, ele contou que um dia seu pai
mandou sua mãe correr muito e depois foi atrás dela. Quando ela estava
a uma certa distância, ele atirou e a matou igual um caçador faz com
sua presa. “Eu era muito pequeno quando isso aconteceu. A polícia
nunca descobriu o assassino e eu fiquei em silêncio até hoje. A senhora
é a única pessoa que sabe dessa minha vergonha e tristeza. Um ano
depois ele morreu de enfarto e eu fui criado por uma tia minha. Mas
não consegui jamais esquecer aquela cena e, quando cresci, comecei a
caçar, caçar! E não consegui mais parar”, contou o pobre homem. A
velha Selena se aproximou um pouco mais do caçador, pegou em sua
mão e disse: “Está tendo a oportunidade de refletir sobre a sua dor
nesse momento. Volte para o hotel e decida se quer continuar a caçar
seu pai, vivendo no passado ou se quer refazer sua vida daqui para
frente. Não vai esquecer o seu passado rápido. Sua ferida ainda vai
demorar muito tempo para cicatrizar, mas lembre-se de um detalhe
importante: se a energia maior, ou seja lá qual for o nome que queira
dar, no meio dessa tragédia toda lhe deixou vivo, era porque ela ainda
tem uma missão para você cumprir”. O caçador ouviu a velha Selena
atentamente, depois voltou para o hotel, fez suas malas e partiu.
Passaram-se três meses e ele voltou à cidade. Aqui chegando, pediu às
Selenas para morar na floresta, bem perto da Vila. E, durante muitos
anos, ele foi o protetor da floresta, combatendo não só os predadores,
mas também orientando as pessoas a preservarem a natureza da floresta
de Florentis em todos os sentidos.
Rose terminou de contar a história com os olhos cheios de lágrimas
e eu confesso que fiquei impressionado com o seu jeito. Perguntei a ela
porque não havia se formado em professora. Ela sorriu e respondeu:
- Eu sou professora, Peter; mas aqui em Florentis, devido às poucas
opções que temos, a concorrência para essa área é muito grande. Ou
exercemos a atividade de lecionar ou trabalhamos nos hotéis e pousadas,
como guias turísticas ou como vendedoras das lojas de perfumes.
Rose sorriu e completou:
- Eu ainda não desisti e continuo tentando uma vaga para dar aula
para alunos do curso primário. Quem sabe, um dia eu consiga. Sorri
para Rose e disse a ela que, certamente, conseguiria. Conversamos mais
um pouco e, de repente, ao olhar para a porta da loja, vi Karine parada
com as mãos na cintura me olhando. Eu olhei para ela e perguntei qual
era o problema.
- Não há problema nenhum. Só vim ver o casalzinho conversando!
- em seguida, deu as costas e saiu.
Rose ficou sem graça. Eu disse a ela que não tinha nada com Karine,
da mesma forma como não estava comprometido com ninguém e que
era para ela ficar tranqüila.
Percebi que Rose sentiu-se muito desconfortável com o que acabara
de ocorrer e resolvi ir embora para deixá-la à vontade, mas, antes de
sair, comprei mais um kit Florentis, um vidro do outro perfume que me
chamou atenção e avisei a Rose que, à noite, passaria no barzinho.
Ao deixar a loja de Rose, observei que Karine estava na porta de
sua loja, com uma cara chorosa. Olhei bem sério para ela e segui em
direção à feirinha. Queria encontrar a Selena Sara.
Nota: Amanhã publicarei mais três capítulos de dia e o ùltimo capítulo a noite.
Para quem não sabe o segredo foi escrito em dez dias, um capítulo por dia, antes da semana do Dia das Mães do ano de 2003
Tags: Dia das Mães, Livros, O Segredo
Meu nome é Elaine Paiva, sou escritora e torno público a partir de hoje, o meu livro, “O Segredo da Sra Greey”.
Espero que gostem. Sejam Bem Vindos!