Segundo Capítulo
O centro da Cidade de Florentis fica a uns quinze minutos da
pousada, para quem vai de carro. Quando entrei na rua principal, fiquei
impressionado com a quantidade de lojas de perfumes que havia naquele
lugar. Era praticamente uma ao lado da outra.
Pedi ao taxista que me deixasse em frente a uma dessas lojas. Fiquei
admirando primeiro a vitrine que, além de perfumes, exibia também
sabonetes, óleos e vidrinho com essências.
Resolvi entrar na loja e comecei a conversar com uma das
vendedoras, a Srta. Karine. Ela me mostrou vários produtos e depois
contou-me algumas histórias misteriosas da ?Cidade das Essências.
Primeiro, perguntei à vendedora qual era o perfume que mais
agradava às mulheres que visitavam a cidade. A Srta. Karine respondeu
que o perfume mais cobiçado pelas mulheres, independentemente de
serem moradoras ou visitantes, era o Perfume Florentis, o qual levava o
nome da cidade.
E ela continuou:
- Segundo os mais antigos, esse perfume foi criado pela avó da
Sra. Greey, uma velha louca que mora à beira do lago. A avó dela
preparou essa fragrância especialmente para sua filha, que estava
perdidamente apaixonada por um visitante. Depois de pronto o perfume,
uma das Selenas, amiga íntima da avó da Sra. Greey, que era uma mulher
muito ambiciosa, roubou a fórmula e entregou-a à um comerciante que
em troca prometeu casar-se com ela.
- O comerciante e a Selena Irene casaram-se e enriqueceram
vendendo esse perfume dentro e fora da cidade. Até hoje, a família
desse comerciante prepara todos os produtos Florentis de forma
artesanal.
- Os mais velhos contam, ainda, que a avó da Sra. Greey jamais
perdoou a amiga e que, depois disso, criou uma fórmula ainda melhor
do que a do Florentis e que somente às mulheres de sua família foi
revelado o segredo - concluiu a vendedora.
Srta. Karine fez uma pausa e perguntou-me se eu estava à procura
de um perfume para presentear a minha esposa. Respondi a ela que não
era casado.
Ela insistiu na abordagem, perguntando-me, então, se era para minha
noiva ou para minha namorada. Eu sorri e disse a ela que não era noivo
e tampouco tinha namorada.
Srta. Karine sorriu e falou que, após o trabalho, ela e suas amigas
iriam para um barzinho em um pequeno shopping da cidade e convidoume
para ir encontrá-las mais tarde.
Eu não garanti que iria, mas agradeci o convite dizendo que talvez
desse uma passadinha para conhecer o bar. Acabei comprando um kit
do perfume Florentis, agradeci a atenção dispensada pela Srta. Karine
e, quando estava saindo da loja, ouvi ela comentar com a outra vendedora
que, naquela noite, usaria um perfume especial.
Já do lado de fora da loja, fui andando e rindo sozinho. Como as
mulheres podem acreditar nessas bobagens? Tudo bem que o homem
goste de uma mulher cheirosa, no entanto não é o perfume que vai
fazer com que ele se apaixone por ela. ?Mulheres!?.
Passei por várias outras lojas e uma coisa despertou a minha atenção:
todas elas vendiam o perfume Florentis. Isso me deixou um pouco
intrigado, mas resolvi fazer essa pesquisa mais adiante e continuar o
meu passeio.
Enquanto eu andava, lembrava-me de minha mãe e também da Sra.
Greey. Não sei porque, mas eu não conseguia esquecê-la um minuto
sequer.
Após andar alguns minutos, cheguei a uma feirinha muito
interessante, onde várias mulheres, que se diziam descendentes das
Selenas, vendiam perfumes caseiros. Em tom bem alto elas anunciavam
que tinham as melhores poções de amor e falavam coisas do tipo: tenho
o perfume do Amor… o perfume da Paixão… o perfume para arranjar
um bom casamento… aceito encomendas… etc. etc. etc..” Eu andava
pela feirinha e me divertia com aquelas mulheres, que faziam de tudo
para vender seus produtos. Um pouco mais adiante, quase no final da
feirinha, uma senhora beirando uns 70 anos olhava-me fixamente. Ela
vendia essências e ervas, mas não frascos de perfumes prontos para
serem usados, como as outras.
Intrigado e curioso com aquele olhar, me aproximei e comecei a
fazer-lhe algumas perguntas como se eu fosse um comprador comum.
Ela respondia a cada uma das minhas perguntas, mas continuava a me
olhar fixamente nos olhos. Ela falou sobre algumas ervas que eram
usadas para combater e evitar os males causados pela bronquite, curar
e prevenir doenças no estômago, rins, vesícula e até algumas que eram
recomendadas para tratamentos de pele. Perguntei-lhe sobre as essências
e pedi a ela que me dissesse qual delas era a mais cheirosa e a mais usada.
Ela me olhou firmemente e falou:
- A mais cheirosa é aquela que só o seu coração pode sentir, ao
passo que a mais usada é aquela que todos querem ter, mas não sabem
realmente qual é a sua verdadeira utilidade.
Ao ouvir sua resposta atentamente, comentei que não a havia
entendido e pedi que me explicasse o que queria dizer exatamente com
aquelas palavras.
A velha senhora me olhou e disse que o cheiro do passado e a essência
do futuro que eu estava procurando encontravam-se dentro do meu
coração e que muito em breve eu compreenderia o significado de suas
palavras.
Eu fiquei agitado com a resposta que ela me dera e por uns segundos
fiquei parado sem saber o que falar.
- A mais usada nem sempre é aproveitada no real propósito para
qual a natureza nos disponibilizou. O Florentis, por exemplo, é usado
para deixar as mulheres cheirosas e seus maridos, amantes, noivos ou
namorados apaixonados. No entanto, para nós conhecedoras de sua
verdadeira utilidade, trata-se de uma essência que, se usada de forma
correta, é excelente para manter os insetos longe. É muito boa para
deixar a casa com um cheiro acolhedor e, se usada combinada com um
outro ingrediente, torna-se um excelente remédio para o tratamento de
queimaduras - continuou a velha senhora com seus esclarecimentos a
respeito das essências e sua utilidade.
De repente, ela pára e olha novamente dentro dos meus olhos e diz:
- Se quiser saber mais sobre as essências, procure a Sra. Greey.
Ela poderá lhe dar muitas respostas sobre esse assunto.
Aproveitando que ela mencionara a Sra. Greey, perguntei se ela
estaria realmente doente, como havia escutado alguns comentários. A
velha senhora respondeu afirmativamente com a cabeça e continuou:
- A Sra. Greey está doente de saudade e por causa da falta de
compreensão dos outros.
Agradeci pela atenção e segui em direção à saída da feirinha. Quando
olhei para trás, a velha senhora havia desaparecido. Que lugar é esse?
Que tantos mistérios rondam a cidade? A impressão que eu tinha é que
a cada passo que dava naquela cidade, mais intrigante ela se tornava.
Fiquei tão perturbado com as falas da velha senhora, que resolvi
voltar para a pousada a pé, numa tentativa de colocar os meus
pensamentos em ordem.
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ISBN - 85-7640-063-4
Tags: Literatura, Livros, O Segredo
Meu nome é Elaine Paiva, sou escritora e torno público a partir de hoje, o meu livro, “O Segredo da Sra Greey”.
Espero que gostem. Sejam Bem Vindos!